sábado, janeiro 22, 2011

Como se Sente

foto: reprodução

No berçário do hospital, havia um lindo menino envolvido em uma manta azul, prestes a ganhar todo esse nosso mundo e iniciar sua vida ao lado de sua família. Assim como sua manta, as roupas que usava e os carrinhos que ganhava para brincar evidenciavam seu sexo para qualquer pessoa que o visse. Mas as coisas não eram tão simples assim como aparentavam ser. Ele era um menino com um olhar triste, calado, tímido e passivo. O que ele tinha entre as pernas não condizia com a realidade de seus pensamentos. Ele se sentia um prisioneiro dentro de um corpo errado, que parecia não lhe pertencer. Se sentia como uma menina, assim como qualquer outra, preferindo o rosa do que o azul, a boneca ao invés do carrinho e sonhava em trocar suas calças por um belo vestido. Sofria ao saber que não poderia usar um vestido, dançar balé e freqüentar as aulas de sapateado na escola. Seu maior pesadelo era acordar pela manhã, olhar para o espelho e deparar com os fios de barba que teimavam em nascer, revelando um intrometido bigode. No banho, enquanto lavava os cabelos com uma mão, com a outra escondia dele mesmo, suas partes íntimas. Não queria ver seu próprio corpo. Tudo isso lhe fazia perguntar quem ele era. Deus lhe fez assim, especial, afinal de contas não existem muitas meninas por aí com um pênis. A partir daí, a transformação do masculino para o feminino se iniciou e ele começou a viver integralmente como uma mulher. Deixou seus cabelos crescerem, furou as orelhas e passou a usar o tão desejado vestido. A cada dia ficava mais evidente que o que sentia não era uma fase e foi então se libertando, sendo uma mulher, agindo como tal. Já na puberdade, sua testosterona foi embebedada com doses de estrógeno, dando formas femininas ao seu corpo. Desde criança, sonhava com a fada madrinha entrando em seu quarto e no toque da varinha mágica, fosse feita a troca de sua genitália. Sonhos a parte, nada que um bisturi resolvesse e por fim revelasse uma linda mulher. Hoje, ela encara a vida assim, lutando para ser aceita como sente que é. Não há nada mais humano do que as pessoas serem o que realmente elas são, sendo, portanto felizes e não contribuindo para que o mundo seja tão mais maldoso do que já é.  

2 comentários:

Paula Leão disse...

Que maneira delicada e bonita de explicar esse fenômeno!

Simone disse...

Um assunto muito profundo e serio, pouco transmitido, mas vc o tratou de maneira tao elegante. Adorei!